Joby Aviation processa Archer Aviation na Justiça da Califórnia e amplia a tensão no mercado de táxi voador, com acusações de uso indevido de informações estratégicas em um momento decisivo para as certificações da FAA e a corrida comercial dos eVTOLs.
A ação foi protocolada no Tribunal Superior da Califórnia, em Santa Cruz, sede da Joby. Nos autos, a companhia afirma que a rival obteve vantagem competitiva a partir de dados internos levados por um ex-executivo, e classificou o episódio como gravíssimo. “Isso é espionagem corporativa, planejada e premeditada”, afirmou a empresa na queixa.
Segundo o processo, o ex-funcionário George Kivork, então responsável pelas políticas estaduais e locais da Joby nos Estados Unidos, teria baixado dezenas de arquivos, enviando parte do material para seu e-mail pessoal dois dias antes de pedir demissão, em julho, para assumir um cargo na Archer.
O que a Joby diz ter acontecido e por que a disputa escalou
De acordo com a Joby, as informações supostamente levadas eram “altamente confidenciais” e foram usadas para orientar uma oferta comercial da concorrente. Em agosto, um parceiro teria informado a Joby que a Archer apresentou uma proposta “mais lucrativa”, supostamente amparada por dados internos da empresa.
A Joby afirma ainda que a incorporadora envolvida nas negociações tentou rescindir o contrato, alegando quebra de confidencialidade. Na mesma ação, a companhia diz que Kivork se recusou a devolver os arquivos e sustenta que a Archer não esclareceu como teve acesso aos termos do acordo que estavam protegidos por confidencialidade.
Para reforçar a narrativa, a empresa aponta que os documentos teriam sido extraídos com proximidade da saída do executivo e envio para conta pessoal, o que, na sua avaliação, evidencia intenção de uso competitivo. Com isso, a Joby pede que a Justiça impeça a utilização de qualquer informação que considere segredo comercial e apure eventuais danos.
A resposta da Archer e a batalha por segredos comerciais
A Archer classificou o processo como “infundado” e afirma que a Joby tenta prejudicar sua maior concorrente, negando ter se beneficiado de dados da rival. Em nota, o diretor jurídico e de estratégia da Archer, Eric Lentell, disse que a denúncia não aponta “um único segredo comercial específico” e destacou que a companhia adota protocolos rígidos na integração de novos funcionários.
O embate atual reacende um histórico recente de conflitos por propriedade intelectual no setor de mobilidade aérea avançada. Em 2023, a Archer encerrou outra disputa de segredos comerciais, dessa vez com a Wisk Aero, subsidiária da Boeing, em acordo que permitiu às empresas virar a página e seguir com seus cronogramas de certificação e produção.
Neste caso, a Archer diz que cumpre padrões internos de conformidade e que contratações vindas de concorrentes passam por controles para evitar o ingresso de material protegido. A Joby, por sua vez, insiste que a sequência de eventos, unida à proposta concorrente supostamente lastreada em dados internos, indica benefício indevido pela rival.
Mercado de eVTOL acelera com voos de teste, IPO e nova política pública
A disputa ocorre em um cenário de forte movimentação no segmento de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical. O mercado de eVTOL ganhou tração, impulsionado pelo novo programa piloto anunciado pelo presidente Donald Trump e pela corrida por certificações da FAA, essenciais para o início da operação comercial de táxis aéreos em rotas urbanas e regionais.
Na semana passada, a Joby concluiu o primeiro voo de teste de uma aeronave híbrida desenvolvida com a L3Harris, esforço que amplia o leque de soluções, combinando alcance e eficiência energética. No mesmo período, a Beta Technologies abriu capital na Bolsa de Nova York, sinalizando apetite de investidores por projetos de mobilidade aérea com maturidade tecnológica e visibilidade de receita.
As ações da Joby dobraram no último ano; as da Archer avançaram 36%.
Os números refletem a expectativa de que as primeiras operações de táxi voador em corredores controlados comecem logo após as autorizações regulatórias, enquanto fabricantes correm para fechar parcerias com cidades, aeroportos, incorporadoras e operadores logísticos. Nesse contexto, qualquer suspeita de uso indevido de informação pode alterar negociações estratégicas, inclusive em contratos de infraestrutura e serviço.
Ao levar o caso à Justiça, a Joby Aviation tenta obter medidas que preservem seu pipeline comercial e seus segredos comerciais, ao mesmo tempo em que busca um desfecho que desencoraje práticas que considera predatórias no nascente ecossistema de eVTOLs. A Archer Aviation, por sua vez, procura afastar a acusação, manter o foco nos marcos regulatórios e proteger sua reputação junto a investidores e parceiros.
No curto prazo, o processo pode trazer mais escrutínio para a governança do setor, reforçando políticas de compliance na contratação de talentos e no tratamento de dados sensíveis. No médio e longo prazos, a evolução deste caso, somada ao avanço regulatório da FAA e ao apetite do mercado de capitais, deve influenciar a configuração competitiva do segmento de táxi voador e a velocidade de adoção dos eVTOLs em grandes centros.
Enquanto o tribunal em Santa Cruz avalia as alegações, o que se vê é um setor em ebulição, com protótipos avançando, capital entrando e rivais disputando, em cada detalhe, a liderança em uma fronteira tecnológica que promete transformar a mobilidade aérea urbana.

