G20 deve aprovar primeiro texto sobre minerais críticos, com apoio do Brasil ao beneficiamento local na origem, entenda impactos para lítio, cobalto e terras raras

G20 avança em acordo sobre minerais críticos e Brasil apoia beneficiamento local

Presidência da África do Sul prioriza minerais críticos, com diretrizes para extração e processamento na origem, Brasil apoia beneficiamento local e Lula participa da cúpula em Joanesburgo

O G20 caminha para aprovar, pela primeira vez, um texto dedicado aos minerais críticos, tema alçado à prioridade pela presidência da África do Sul. A expectativa foi confirmada em Brasília pelo secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, Philip Fox-Drummond Gough, que destacou o caráter estratégico do assunto para a economia global. A Cúpula de Líderes será realizada no sábado, 22, e no domingo, 23, em Joanesburgo, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a Agência Brasil, o documento em negociação estabelece princípios para a extração e o beneficiamento desses recursos, reforçando a defesa de que o processamento ocorra nos países produtores.

De acordo com Gough, trata-se do primeiro consenso formal do G20 sobre o tema, alinhado à demanda histórica de nações em desenvolvimento por mais valor agregado e menos dependência de poucos fornecedores globais. A posição brasileira é convergente com a proposta sul-africana, que enfatiza a industrialização local e o fortalecimento das cadeias de suprimento.

Por que os minerais críticos entraram no centro da agenda do G20

Os minerais críticos incluem elementos como lítio, cobalto, níquel e terras raras, insumos essenciais para setores de defesa, tecnologia de ponta e transição energética. Eles sustentam cadeias de produção de baterias para carros elétricos, painéis solares, turbinas eólicas e semicondutores, o que tem intensificado a corrida global por acesso a reservas e redes de fornecimento mais seguras e diversificadas.

Como descrevem as fontes, “Minerais críticos são essenciais para setores como defesa, tecnologia de ponta e transição energética”. A centralidade do tema se explica pelo avanço da eletromobilidade, pela digitalização da indústria e pela necessidade de ampliar a resiliência das cadeias, diante de choques geopolíticos e gargalos logísticos verificados nos últimos anos.

No caso brasileiro, o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) aponta a relevância de longo prazo do país, com base mineral robusta e potencial de crescimento industrial. De acordo com o levantamento citado, “O Brasil possui cerca de 10% das reservas mundiais desses elementos, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).” A alta demanda tem ampliado a pressão por novas frentes de exploração e, em algumas áreas, gerado conflitos relacionados a projetos de energia limpa, o que evidencia a importância de regras claras, governança ambiental e benefícios socioeconômicos locais.

Beneficiamento na origem, o que propõe a África do Sul e o papel do Brasil

A proposta defendida pela África do Sul, e apoiada pelo Brasil, busca garantir que o beneficiamento ocorra localmente, conectando a mineração à industrialização e à inovação nos países produtores. A lógica é ampliar a participação desses países no valor gerado, diversificar fornecedores e reduzir vulnerabilidades de mercados concentrados. Para Brasília, a diretriz abre espaço para políticas de conteúdo local, atração de investimentos em refino e transformação, e formação de mão de obra qualificada, com ganhos em competitividade e sustentabilidade.

Segundo Gough, este será o primeiro consenso formal do G20 sobre minerais críticos, com princípios orientadores para a extração responsável, o processamento e a integração a cadeias industriais. A sinalização do G20 tende a favorecer projetos que integrem produção de lítio, cobalto, níquel e terras raras a hubs regionais de tecnologia limpa, fomentando parcerias Sul-Sul e cooperação com economias avançadas interessadas em diversificar abastecimento com padrões socioambientais robustos.

Como resumem os interlocutores nas discussões preparatórias, “Primeira vez que o G20 prepara um texto dedicado ao tema”, um marco político que pode orientar bancos de desenvolvimento, investidores e empresas a priorizar beneficiamento local e cadeias de valor regionais.

Declaração de Líderes, tributação dos super-ricos e a agenda de Lula

A programação da cúpula também avança em frentes diplomáticas e econômicas. Segundo as fontes, “A Cúpula do G20 será dividida em três sessões, duas no sábado e uma no domingo.” O principal documento, a Declaração de Líderes, ainda enfrenta resistências, em parte por conta da ausência dos Estados Unidos nas negociações. Alguns países defendem substituir o texto tradicional por uma carta da cúpula, mas o Brasil apoia a manutenção da declaração completa, como destacou Gough.

Entre os pontos em debate, deve reaparecer a proposta de taxação de super-ricos, bandeira defendida pela presidência brasileira no ciclo anterior do G20. A orientação é evitar que temas políticos excessivamente detalhados travem as conversas econômicas, o que significa tratar guerras e conflitos de forma mais objetiva, com ênfase em princípios do direito internacional. Em paralelo, a declaração financeira deve abordar sustentabilidade da dívida pública e estímulos a investimentos, aspectos cruciais para acelerar a transição energética e a infraestrutura necessária ao processamento de minerais críticos.

O presidente Lula chega a Joanesburgo na sexta-feira, 21, com reuniões bilaterais previstas, incluindo encontro com Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul. À margem da cúpula, no domingo, ocorre a reunião do Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (IBAS), criado em 2003 para fortalecer a cooperação Sul-Sul. Após o encontro do G20, Lula segue para Moçambique em visita de trabalho, em linha com a prioridade diplomática do atual governo para a retomada das relações com países africanos desde 2023.

Se consolidado, o acordo sobre minerais críticos será um sinal do G20 em favor de cadeias mais inclusivas e resilientes, com beneficiamento local e maior valor agregado nos países produtores. Para o Brasil e para o Sul Global, é uma oportunidade de transformar vocações minerais em desenvolvimento industrial, inovação tecnológica e empregos qualificados, com regras ambientais e sociais claras, e maior estabilidade na oferta para a transição energética mundial.

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