Doação de US$ 300 milhões impulsiona o plano de saúde climática do Brasil, com adesão de 40 países e priorização de infraestrutura resistente a desastres e atendimento às populações mais expostas
O Brasil garantiu R$ 1,5 bilhão em doações de instituições filantrópicas globais para acelerar o plano de saúde climática apresentado pelo governo na COP30, em Belém, o Plano de Ação de Belém para a Saúde. O anúncio, feito nesta quinta-feira, 13, integra uma estratégia internacional para adaptar sistemas de saúde ao avanço dos eventos climáticos extremos, reduzir mortes e ampliar o cuidado às populações mais vulneráveis.
O aporte, equivalente a US$ 300 milhões, foi articulado pela Coalizão para o Clima e o Bem-Estar da Saúde e reforça a ambição do Brasil de liderar a agenda de clima e saúde na região e no G20. Segundo o Ministério da Saúde, o plano de saúde climática já conta com a adesão de 40 países e 40 instituições sociais, incluindo parceiros estratégicos das Américas e da Europa.
Plano de Ação de Belém: por que o plano de saúde climática é prioridade
A proposta brasileira se ancora em três frentes. A primeira amplia o monitoramento de dados sobre aumento de temperatura e seus impactos nas doenças. A segunda foca a construção de estruturas de saúde resilientes, capazes de operar em condições críticas, com água, energia e conectividade garantidas mesmo após desastres. A terceira prioriza a atenção à saúde dos mais vulneráveis, garantindo exames, cirurgias e acompanhamento contínuo.
Ao apresentar o plano de saúde climática, o Ministério destacou que enchentes e secas têm se intensificado e sobrecarregado redes locais, enquanto ondas de calor elevam a mortalidade por calor extremo e ampliam a incidência de doenças como dengue e respiratórias relacionadas à qualidade do ar. As ações serão adaptadas à realidade de cada região, com foco na infraestrutura do SUS e na redução de desigualdades.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que o plano foi construído com participação internacional desde maio, quando teve a primeira formulação apresentada na OMS. “Nós apresentamos a primeira formulação desse plano em maio, na reunião da Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde [ONU], em Genebra [Suíça]. E, de lá para cá, foram feitas consultas públicas, reuniões temáticas e colaborações”, disse Padilha à Agência Brasil. “Então, a expectativa é que dezenas de países anunciem formalmente o compromisso de implementar esse plano de ação nos seus países também”, prosseguiu.
Quem financia, quem apoia e o que dizem os líderes
O diretor de Clima e Saúde da Welcome Trust, Alan Dangour, destacou o alcance global da iniciativa da Coalizão. “Estou muito feliz que hoje pudemos anunciar, comprometendo US$ 300 milhões para ações integradas para combater as causas das mudanças climáticas e suas consequências para a saúde. Essa iniciativa é chamada de Coalizão para o Clima e o Bem-Estar da Saúde. Ela inclui 35 milhões de pessoas no mundo”, explicou.
Padilha também confirmou que a proposta já reúne países de todos os continentes, com sistemas públicos robustos, e citou o apoio do Reino Unido, atual presidência do G20, além de países como Canadá, México, Colômbia e Uruguai. “Nós temos países de todos os continentes, países que têm sistemas nacionais públicos de saúde importantes, tradicionais, como o Brasil. O Reino Unido, por exemplo, tem um sistema nacional público universal mais tradicional, países de várias dimensões”, afirmou.
No Brasil, os recursos do plano de saúde climática serão majoritariamente destinados a quem mais precisa. “Vulnerabilidades sociais, como acesso aos serviços de saúde, vulnerabilidades que são marcas da desigualdade no Brasil, como o racismo às populações negra, indígena, a desigualdade de gênero, em relação às mulheres, então um dos eixos do plano é exatamente priorizar os recursos para cuidar dessas populações”, pontuou o ministro.
Além das doações anunciadas, o governo lembra que o país já vem captando para adaptação em saúde. “O Brasil já vem fazendo ações de adaptação que captam recursos internacionais. Cerca de US$ 160 milhões [R$ 847,9 milhões] foram destinados para o Brasil em ações de adaptação do serviço de saúde. E, com esse plano e com a liderança brasileira, a gente acredita que a gente vai poder captar mais recursos ainda, de financiadores internacionais, alguns que estão na COP, bancos, agências de desenvolvimento”, afirmou.
Da teoria à prática: hospitais resilientes e respostas rápidas
O plano de saúde climática já deve orientar a reconstrução dos serviços de saúde em Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, após o tornado que atingiu a região. “Nós já tomamos essa decisão, vai ser um demonstrativo desse plano de adaptação reconstruir as unidades de saúde lá [Rio Bonito do Iguaçu] com característica que a gente está chamando de unidade de saúde resiliente”, disse Padilha.
Segundo o ministro, as unidades reconstruídas terão padrão de engenharia e conectividade preparados para manter operações críticas mesmo em colapsos de rede e infraestrutura. “Ou seja, que o padrão construtivo dela sobreviva a situações como essa, que a estrutura, por exemplo, de conexão, seja uma conexão adaptável para que, se tiver uma quebra do sistema de conexão, você tenha situações adaptáveis para manter os sistemas de informação de saúde. Manter, por exemplo, o sistema de informação da Farmácia Popular, que é muito importante para garantir a medicação”, continuou.
Para ampliar o alcance do plano de saúde climática, o governo trabalha ainda em uma solicitação de financiamento ao banco dos Brics, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), estimada em US$ 350 milhões, cerca de R$ 1,8 bilhão, para erguer hospitais inteligentes. Segundo Padilha, “são hospitais para urgência e emergência, que são resilientes às tragédias de mudanças climáticas”.
Com a nova rodada de recursos e a adesão internacional crescente, o Plano de Ação de Belém para a Saúde se consolida como uma agenda central na COP30. Ao combinar financiamento, infraestrutura e foco em vulneráveis, o plano de saúde climática busca reduzir danos imediatos de desastres, garantir continuidade do cuidado e preparar o SUS para um mundo mais quente e mais instável.

