Por dentro de Petra, a cidade perdida, capital nabateia a 1,5 mil metros de altitude, com túmulos monumentais, sistema hidráulico engenhoso e novas descobertas em 2024
Petra, a cidade perdida, ergue-se no deserto da Jordânia, a 1,5 mil metros de altitude, deslumbrando visitantes com construções talhadas em rocha avermelhada. Logo após o estreito desfiladeiro Siq, desponta a fachada monumental de Al Khazna, o famoso Tesouro, cuja função exata ainda é discutida por arqueólogos. Há quem aponte um mausoléu dedicado ao rei Aretas IV, mas o caráter simbólico do edifício segue em debate.
Capitais antigas costumam ser fruto de convergência de rotas e ideias, e com Petra, a cidade perdida, não foi diferente. A metrópole dos nabateus prosperou cerca de dois milênios atrás, foi anexada por Roma em 106 d.C., caiu no esquecimento e foi redescoberta no século XIX. Em suas pedras cor de laranja, vermelho e rosa, sobrevivem templos, túmulos e traços de um urbanismo sofisticado, capazes de tirar o fôlego até hoje.
Como nasceu e prosperou Petra, a cidade perdida
Petra, a cidade perdida, cresceu como ponto estratégico no comércio entre o sul da Arábia, a África, a Índia e o mundo greco-romano. Sua prosperidade veio de tributos: a cidade era financiada por impostos de até 25% sobre mercadorias importadas, e até a água tomada pelos camelos dos viajantes era cobrada. No auge, estima-se que abrigou entre 20 mil e 30 mil habitantes.
O domínio nabateu de engenharia impressiona. Em um ambiente árido, ergueram um sistema hidráulico que canalizava fontes externas por condutos escavados na rocha, conectados a reservatórios, cisternas e represas. Túnel subterrâneo ajudava a evitar o aquecimento da água e barreiras impediam que enchentes sazonais destruíssem as passagens pelo Siq. Em Beidha e arredores, cultivavam em terraços agrícolas que reduziam a erosão, com vinhedos, oliveiras e cereais, como trigo e cevada, registros que aparecem inclusive em papiros.
Boa parte das estruturas preservadas são túmulos, dos mais simples a fachadas suntuosas como a do Tesouro, observa o arqueólogo Zeyad Al-Salameen. Para a antropóloga Megan Perry, “Eles praticamente não deixaram registros escritos próprios”. A visão de mundo nabateia aparece em inscrições funerárias e devoções a deuses como Dushara e Allat, representados originalmente em bétilos e, mais tarde, com influências helenísticas e indianas. Os nabateus também deixaram traços de refinamento no urbanismo, no repertório helenístico de colunas e frontões, e na cerâmica Nabatean Fine.
Achados recentes e mistérios que ainda emergem do deserto
As escavações continuam a revelar camadas de história em Petra, a cidade perdida. Em 2024, uma tumba de dois mil anos foi localizada sob o Tesouro, com 12 esqueletos, além de fragmentos de cerâmica. Um dos indivíduos segurava algo semelhante a um cálice cerâmico. Segundo o pesquisador Tim Kinnaird, os sedimentos foram datados entre o século I a.C. e o início do século II d.C., enquanto a descoberta ocorreu durante um trabalho de sensoriamento remoto do geofísico Richard Bates, ambos da Universidade de St. Andrews. O professor Laurent Tholbecq lembra que tumbas similares já haviam sido encontradas na região há cerca de 20 anos, e Perry pondera que o achado recente foi supervalorizado frente a escavações de 2003, que reuniam mais indivíduos.
Apesar da fama de suas fachadas, a cidade permanece majoritariamente soterrada. Na área central, apenas 2% foi escavado até agora, um trabalho que já revelou cerca de 800 construções. O próprio Al-Salameen, natural da região, resume o impacto de visitar o sítio: “Se você quiser visitar Petra, não conseguirá conhecê-la em um único dia“, e completa, “Você verá uma cidade viva diante de si”.
As dúvidas seguem muitas, inclusive sobre organização política e costumes. Estudos genéticos em esqueletos apontam origens mistas árabes, levantinas e do Cáucaso, algo esperado em um entreposto comercial. Quanto à visão de vida, Al-Salameen resume: “Eles encaravam a vida como uma curta jornada.”
Declínio, redescoberta e por que Petra continua viva
A maré virou quando o grego Hipalo identificou, em 20 d.C., uma rota marítima para o Oriente, abalando o monopólio da Rota do Incenso e a economia nabateia. Em meio a tensões regionais, a cidade foi anexada por Roma em 106 d.C.. Como define Jane Taylor, “No fim do século I d.C,. o reinado dos nabateus era a única peça que faltava no quebra-cabeça romano do Oriente Médio”.
O golpe fatal veio com os terremotos de 363 d.C., que danificaram o sofisticado sistema de água, e de 551 d.C., que agravou a destruição. A população migrou pouco a pouco para áreas próximas a nascentes, até que a urbe virou cidade fantasma. Para Al-Salameen, os tremores “foi um dos motivos para o abandono geral da cidade”. Em maio deste ano, uma enchente repentina voltou a atingir a região sul da Jordânia, alcançando o sítio arqueológico. Centenas de turistas precisaram ser evacuados e, na região como um todo, foram cerca de 1,8 mil. Duas vítimas, mãe e filho belgas, tiveram os corpos localizados durante as buscas.
O fascínio moderno por Petra, a cidade perdida, começou com a redescoberta em 1812 pelo suíço Johann Burckhart, que se disfarçou de peregrino muçulmano e, para convencer o guia beduíno, afirmou que sacrificaria uma cabra no túmulo de Aaron. Seus relatos saíram entre 1819 e 1831. Anos depois, T. E. Lawrence a definiria com a frase célebre: “Petra é o lugar mais magnífico do mundo“. Reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO em 1985, a cidade entrou no imaginário pop com Indiana Jones e a Última Cruzada, em 1989.
O termo cidade perdida também carrega um contexto histórico. Como explica o arqueólogo Ângelo Alves Corrêa, “O termo ‘cidade perdida’ costuma designar locais com um número significativo de construções feitas com materiais não perecíveis, cuja localização permaneceu desconhecida por longos períodos para os pesquisadores”. Ele lembra que “As populações locais sempre souberam de sua existência, utilizando-os como áreas de cultivo, pastagem ou como fonte de materiais para construção”. Em outras palavras, o que a ciência reencontra, as comunidades muitas vezes jamais esqueceram.
No alto do Umm al-Biyara, onde já houve uma cidadela que pode ter sido área administrativa, e diante da fachada do Tesouro, Petra, a cidade perdida, segue ensinando, pedra a pedra, por que é um dos sítios arqueológicos mais extraordinários do planeta.

