Documentos internos sugerem que até 10% da receita anual veio de campanhas de alto risco, como cassinos online e produtos proibidos, enquanto a Meta afirma que a estimativa é “grosseira e superinclusiva”
Relatos obtidos pela Reuters apontam que a Meta, proprietária de Facebook, Instagram e WhatsApp, teria monetizado em grande escala anúncios ilegais e campanhas fraudulentas. Segundo os documentos citados pela agência, a empresa estimou que até 10% de toda a sua receita anual, cerca de US$ 16 bilhões, teria origem em anúncios ilegais, incluindo golpes financeiros, cassinos online e produtos proibidos. A apuração reacende o debate sobre a responsabilidade das plataformas digitais na contenção de fraudes online e na proteção dos usuários.
De acordo com o material mencionado, a companhia tinha ciência do problema por anos e, em vez de eliminá-lo com rapidez, hesitou em agir por receio de impactos no negócio publicitário. Em um cenário de grande escala, a Meta teria exibido até 15 bilhões de anúncios de “alto risco” por dia. Em alguns casos, em vez de banir os suspeitos, a empresa cobrava mais caro desses anunciantes, ampliando a receita com o mecanismo conhecido como penalty bids.
Os documentos também indicam que, ao clicar em conteúdos problemáticos, usuários passavam a receber ainda mais anúncios de golpes por causa da própria personalização publicitária. Essa dinâmica teria reforçado um ciclo de exposição a riscos, o que, internamente, levou a companhia a reconhecer que suas plataformas se tornaram um pilar da economia global de fraudes online, segundo a Reuters.
Como funcionava o filtro e o “penalty bids”, segundo os documentos
Entre os pontos mais sensíveis revelados está a forma como as campanhas suspeitas eram avaliadas. De acordo com a apuração, “Meta só bloqueava campanhas quando seus sistemas automáticos apontavam 95% de chance de fraude”, segundo documentos obtidos pela Reuters. Quando a probabilidade ficou abaixo desse limiar, mesmo com fortes indícios, a prática relatada foi priorizar a cobrança de valores maiores, e não o bloqueio imediato.
Esse ajuste de preço teria transformado suspeitos de fraude em fonte extra de receita. O volume é expressivo, já que, segundo os registros, a plataforma exibia cerca de 15 bilhões de anúncios de “alto risco” por dia, ligados a e-commerce falso, investimentos fraudulentos, cassinos ilegais e produtos médicos proibidos. Apenas essa categoria teria gerado US$ 7 bilhões por ano em publicidade, de acordo com a documentação citada.
Os papéis internos indicam ainda um cálculo de custo regulatório versus receita. Em vez de interromper por completo os anúncios ilegais, a empresa teria buscado um equilíbrio entre possíveis perdas com multas e a manutenção de uma fatia lucrativa do negócio. Um planejamento interno, segundo a Reuters, chegou a prever reduzir a parcela de receita oriunda de fraudes de 10,1% em 2024 para 5,8% em 2027, com prioridade de ações mais duras em países com risco regulatório imediato.
Pressão de reguladores nos EUA e na Europa, além do risco de multas
As revelações colocam a Meta sob escrutínio de órgãos reguladores. Nos Estados Unidos, a SEC, a Comissão de Valores Mobiliários, estaria investigando a presença de golpes financeiros nas plataformas. No Reino Unido, autoridades apontaram que as redes da companhia estiveram ligadas a 54% das perdas por fraudes online em 2023, um percentual superior ao de concorrentes somadas, segundo as informações repercutidas pela Reuters.
Apesar do risco de sanções, um documento interno citado pela agência teria estimado até US$ 1 bilhão em multas, valor que ficaria aquém dos bilhões obtidos com anúncios ilegais, de acordo com as projeções descritas. Esse cálculo reforça a leitura de que, por um período, a estratégia teria sido a de enfrentar processos e penalidades enquanto se preservava parte significativa da receita publicitária que nascia de campanhas de alto risco.
Esse cenário também elevou as discussões sobre a responsabilidade das plataformas em impedir que fraudes online se espalhem pela publicidade digital. Especialistas cobram transparência nos critérios de moderação, rapidez em bloqueios e maior investimento em verificação de anunciantes, reduzindo incentivos econômicos para quem tenta burlar as regras.
O que diz a Meta, os números que a empresa apresenta e os próximos passos
Em resposta à reportagem, o porta-voz da empresa, Andy Stone, afirmou que os documentos “apresentam uma visão distorcida” e que a estimativa de 10% de receita proveniente de golpes era “grosseira e superinclusiva”. Segundo ele, o levantamento interno “serviu apenas para planejar investimentos em segurança”, e a companhia teria concluído que a fatia real é menor.
Stone acrescentou que a Meta “removeu 134 milhões de anúncios fraudulentos em 2025 e reduziu em 58% o número de denúncias de golpes nos últimos 18 meses”. A empresa diz investir de forma crescente em inteligência artificial para detectar e bloquear anúncios ilegais, além de aprimorar sistemas que desestimulam fraudes financeiras, cassinos não licenciados e produtos proibidos.
Mesmo com a defesa pública, a companhia permanece sob pressão de reguladores e de entidades de defesa do consumidor. Para especialistas, o caso pode se tornar um marco regulatório para publicidade digital, estimulando novas regras de transparência, auditorias independentes e métricas mais rígidas de moderação. Se confirmadas as alegações, a tendência é de punições mais pesadas e de uma revisão ampla da política de anúncios ilegais no ecossistema da Meta.
No curto prazo, a expectativa é que as plataformas apresentem compromissos verificáveis de redução de fraudes online, divulguem relatórios detalhados sobre a origem da receita publicitária e adotem bloqueios proativos que evitem a recorrência de golpes, inclusive quando a probabilidade de fraude ainda não alcança patamares extremos. A disputa narrativa entre as alegações da investigação e os dados da própria empresa deve pautar as próximas ações de fiscalização nos Estados Unidos e na Europa.

